Renata Rizzo

Renata Rizzo

Não tenho o objetivo aqui, de substituir a leitura dos originais desses contos milenares. Muito pelo contrário, até porque na história das Mil e uma Noites, conto apenas a história que introduz e abre os contos. Com um leve toque de adaptação, voltada para um público mais jovem, que precisa ser despertado para a leitura. As poesias, por exemplo, são de minha autoria. Em toda minha experiência no magistério, meus alunos sempre me pediram indicações de livros, das histórias que eu contava. E era com o coração enternecido, e uma pontinha de orgulho até, que muitas vezes escutava o comentário: "- Aaaahhh, mas esse livro não é do jeito que a 'tia' conta...!"

Por tanto, meus objetivos são: atender ao pedido que me foi feito tantas vezes; incentivar o gosto pela leitura; e apontar um possível "caminho das pedras" para profissionais, já que na minha experiência, as histórias me mostraram o caminho!

Trazer a tona os conteúdos simbólicos, oferecendo uma idéia de porque, elas podem ser um balsamo, um plasma, um curativo e até mesmo pontos para feridas.

Eu posso vir a ser questionada, por exemplo, ja que esta é uma adaptação para um público mais jovem, por ter citado as orgias. Na mitologia grega, os muitos casos amorosos de Zeus, a reação violenta de Hera, o abandono de um filho, a criação de uma criança por um parente... 

Para essas questões, digo simplesmente que não podemos deichar de levar em consideração os conteúdos simbólicos e que, no momento em que há a reação de uma platéia, seja utilizando a técinica do teatro do oprimido, ou contando histórias em terapia, ou em sala de aula, é o momento de conversar. É a hora de perguntar:"- porque eu gosto disso e não daquilo? Porque eu acho isso correto, e aquilo errado? Existe um vilão na história?"

Muitas vezes contei a eles momentos de minha própria vida, como exemplo de determinadas situações que podem acontecer na vida da gente, podendo constatar o quanto isso funcionava. E assim, nas salas de aula, nos corredores, no bebedouro, ou em particular, as confidências vinham e isso era muito comum após as histórias. Esta é uma saída através da arte, do teatro, da terapia, pensando alto, elaborando em palavras, trazendo para a luz o que estava nos consumindo de forma inconsciente.

Sem um canal para se expressar, a psiquê angustiada recorre a falsos alívios, como o álcool, sexo, drogas, silêncios sepucrais.

E assim, digerindo nossos processos, nos libertamos de antigas questões, nos abrimos para o novo, e podemos perceber que a saúde da alma depende de uma energia criativa atuando. 

Por tanto eu afirmo: tudo é a maneira de COMO se fala, de COMO se conta as histórias.

Para quem quiser conhecer as histórias originais das Mil e Uma Noites, sugiro a versão de Antoine Galland com a tradução de Malba Tahan.

Os Contos de Fada, sugiro as versões de Perrault, ou dos irmãos Greem.

A mitologia grega , as traduções de Menelaos Stephanides. 

A interpretação psicológica de Mitos e contos de Fada

Compartilho essas informações, para que minhas descobertas possam ser utilizadas por arteterapeutas, cuidadores, educadores, professores, e qualquer profissional interessado na saúde física, mental e emocional de nosso planeta.

Se você trabalha lecionando, jamais abra mão de se divertir, estar motivado e sentir prazer em suas aulas! Lembre-se: Os alunos só vão gostar da aula se você estiver gostando também!

Nunca deixe o comodismo tomar conta de seu trabalho! Use a criatividade e planeje suas aulas sempre! Só assim você se manterá motivado. E os alunos se interessarão.

"Feliz daquele que transmite o que sabe e aprende o que ensina!"

Cora Coralina

Sherazade conta:

As Mil e Uma Noites... 

Por Renata Rizzo 

Sherazade:"- Quando eu falo, o mundo para pra escutar. E só me calo quando o dia vai raiar! Tenho o dom do Deus Osmard em minha voz, penso rápido e assim eu sou feroz. Da Deusa Anaítes eu herdei suavidade e beleza, de Auvartãt, o Deus das águas, a imaginação e a esperteza, a natureza me fez, rica em muitas qualidades, não sei se vocês repararam, mas eu sou a Sherazade! Posso inventar Mil histórias de sedussão e magia, e a história que eu vou contar, é de como eu me salvei um dia!"

Era uma vez, um pequeno e distante reino de céu azul, desertos dourados e luminosos palácios de mármore branco chamado Samarcanda, capital da Tartária. Neste reino  vivia, a muitos e muitos anos, um rei de coração partido, seu nome era Chazenam. Homem bonito e honrrado, esse rei ja havia sido muito feliz! Porém, certo dia, tendo  recebido um convite do seu irmão, o grande Sultão de toda a Pérsia, para visitá-lo, Chazenam fez todos os preparativos para a viagem. Despediu-se da esposa e partiu ao encontro do irmão. No entanto, mal chegou a sair de Samarcanda, Shazenam pediu aos seus soldados que montassem acampamento e  o esperassem nas imediações de seu reino. Enquanto isso ele voltou ao Palácio real para dar um último beijo em sua esposa Kalila, por quem se julgava amado. O que ele não poderia imaginar, eram os mais secretos sentimentos da rainha. Muito bonita e muito jovem, de longos cabelos negros e olhos violetas, a rainha de Samarcanda, não tendo suportado os longos periodos de solidão, enquanto o marido permanecia em caçadas que duravam o dia inteiro, viagens pelo reino, ou dividia o leito com as outras princesas do Harém...  Kalila apaixonou-se por Hassan, o capitão da guarda do palácio. Aquele que permanecera por mais tempo ao seu lado e a protegera de todos os perigos, ganhara também a atenção de seu coração.

Apesar de estar totalmente ciente de seus deveres, Hassan estava longe de ter o coração de pedra. Não pôde ficar imune aos encantos da rainha.  

 E naquela noite, ao clarão das tochas que nunca se apagam nos quartos dos príncipes, petrificado, mortificado, arrasado, destruído, Chazenam encontrou a sua amada esposa nos braços de outro homem! Um oficial de sua própria guarda! Cedendo ao seu primeiro ímpeto, o rei infeliz puxou seu sabre, e com um só golpe fez passar os dois amantes do sono à morte. Em seguida, pegando um após outro, lançou-os pela janela, diretamente ao fosso que rodeava o palácio. Vingado, o sultão saiu aos tropeços pelo palácio enlouquecido pela dor! Sem dizer a ninguém o que acabara de fazer, ordenou a partida de sua comitiva. Sempre pensando sobre a infidelidade de sua mulher, caiu numa profunda melancolia que não o deixou durante toda a viagem.

Após muitos dias de viagem, ja estava quase chegando ao seu destino. Mal avistou a capital da Pérsia, viu aproximar-se toda a comitiva real de seu irmão, o grande Sultão Chariar!. Que alegria a de ambos os príncipes revendo-se após tanto tempo! Apearam-se, abraçaram-se, e após mil demonstrações de amizade, voltaram a montar a cavalo e entraram na cidade, sob as aclamações de numerosa multidão. Todo o palácio estava em festa.

Ao longo daquele dia, absorvidos em estreita conversa, os irmãos esqueceram-se da vida e Chazenam esqueceu-se da dor.

Mas nem bem a noite houvera caído, e vendo-se sózinho em seus aposentos, Chazenam, voltou a ficar entregue aos seus pesares. Seus pensamentos não o deixaram dormir. Tamanha fora sua dor, e tão aflitivas as suas angústias, que acabou por transparecer-lhe no rosto toda a tristeza de sua alma.  E ao amanhecer, nem mesmo a presença de seu irmão, que tudo fez para tentar distraí-lo pôde arrancá-lo de toda sua agonia novamente.

A princípio, Chariar pensou que seu irmão estivesse com saudade de seu reino e sua esposa, então adiantou-se em entregar-lhe os presentes para que Chazenam pudesse ir embora se assim preferisse, mas percebendo que o irmão também não falava em partir, tentou de maneira infrutífera saber as razões de sua tristeza. Então, mudou novamente de tática, e organizou uma caçada com toda corte, para tentar animar o irmão. Mas Chazenã rogou-lhe que o dispensasse de acompanha-lo, desculpando-se por seu estado de saúde. Apesar de decepcionado, o Sultão não quis forçá-lo, e partiu com a corte.

Vendo-se sózinho, o rei da Grã-Tartária encerrou-se nos seus aposentos e sentou-se a uma janela que se abria para um lindo jardim interno do palácio. Era um recanto deslumbrante com uma magnífica fonte no centro, e teria lhe proporcionado muito prazer se ele estivesse em condições de sentir prazer. Sempre torturado pela lembrança da traição de sua rainha ele olhava pro céu e queixava-se de sua sorte quando algo lhe chamou a atenção: uma porta secreta, por trás de uma parede coberta de hera, abriu-se, e por ela passou a deslumbrante Sultana da Pérsia, a esposa de seu irmão, acompanhada de vinte mulheres cobertas pela burca.

Ninguém deve ter avisado a Sultana de que Chazenam não fora a caçada e permanecia no palácio porque logo as mulheres começaram a livrar-se das vestes, e quando Chazenã já ia virar o rosto, percebeu que naquele grupo que lhe parecera composto exclusivamente por mulheres havia dez homens! Eram dez escravos negros, e todos se jogaram na fonte fazendo muito barulho. Os homens logo se apoderaram, cada um de sua amante. Mas o que mais espantou Chazenam foi a atitude da Sultana, que não ficou muito tempo sem par. Logo bateu palmas e gritou:"-Massud! Massud!"

Então, um belíssimo escravo, negro, musculoso, enorme, pulou de cima de uma árvore e começou a abraçar e beijar a Sultana, que se abandonava em seus braços, completamente entregue, e parecia apaixonada.

Do outro lado da fonte, Chazenam avistou uma mesa posta para um verdadeiro banquete. Homens e mulheres riam alto,saciavam-se, banhavam-se na fonte e andavam nus pelo jardim. O pudor me impede de contar maiores detalhes, mas o leitor pode imaginar muito bem o que aconteceu nas horas que se sucederam naquele suntuoso jardim.

O que Chazenam viu foi suficiente para julgar que seu irmão não era menos lastimável do que ele.

Aquela orgia toda durou até meia noite. Chazenam não pôde desgrudar os olhos daquela cena nem por um segundo. Tudo o que vira lhe dera a oportunidade de um grande número de reflexão;

"-Quão pouca razão tinha eu de julgar tão única minha infelicidade. É esse sem dúvida o inevitável destino de todos os maridos visto que o meu irmão, soberano de tantos estados, o maior príncipe do mundo não pôde evitá-lo. Se assim é, que fraqueza a minha deixar-me corroer pelos pesares.  A lembrança de uma desgraça tão comum não perturbará mais a tranquilidade da minha vida."

E realmente a partir daquele instante ele parou de afligir-se.

No dia seguinte, o grande sultão da Pérsia chegou cedinho da caçada, e foi tomar café da manhã com o irmão. A mudança no semblante do rei da Grã- Tartária era tão evidente, que Chariar não pôde deixar de perguntar:

"-Meu irmão, não quis importunar-te antes, mas agora que te encontro com o espírito completamente livre do que o obscurecia, diz-me, eu te rogo: Porque estavas tão triste, e porque ja não o estás?"

Diante de tais palavras, Chazenam empalideceu. Ficou por algum tempo pensativo, e finalmente respondeu:

"-Tu és o meu irmão mais velho, e meu melhor amigo, mas dispensa-me eu te suplico, de dar-te a resposta que me pedes!"

No entanto, não conseguindo resistir às instâncias de Chariar, prosseguiu contando a infidelidade da Rainha da Samarcanda, e o ato impulsivo que fez com que assassinasse os dois amantes.

 O grande Sultão da Pérsia tudo ouviu com um olhar complassivo e ao final respondeu num tom que denotava toda sua compreensão dos sentimentos do irmão mais novo, compadecendo-se de seus ressentimentos e exortando-o a acreditar que um rei não poderia agir diferente.

No entanto quando fez questão de saber o que aconteceu durante sua ausência para que se procedesse tamanha mudança, Chazenam empalideceu ainda mais. Sem ter como esquivar-se, prosseguiu:

-"Vou obedecer-te e contar-te, pois que me ordenas, porém temo que minha obediência te cause mais pesares do que os que eu tive. Bem quisera eu enterrar tudo isso no eterno esquecimento." E assim contou tudo o que viu nos jardins do palacio do grande sultão da Pérsia. Ao final acrescentou:

"- Tudo isso me levou a muitas reflexões, e os céus me fizeram enchergar que não podemos fazer com que nossa felicidade dependa da fidelidade de outra pessoa. Firme na minha maneira de pensar, pareceu-me grande fraqueza desperdiçar tamanha energia sofrendo por tal infamia. Enfim compreendi que só me restava uma coisa: consolar-me. E se acreditares no que te digo, hás de fazer o mesmo."

Apesar de tão sério conselho, o Sultão não pôde aproveita-lo. Enfureceu-se, e não podendo acreditar no que ouvia, fêz questão de certificar-se com seus próprios olhos, temendo que os olhos do irmão tivessem se enganado. Naquele mesmo momento, organizou nova caçada com toda a corte para a manhã seguinte. Imagine o leitor a torturante noite de angustias que passou o nobre sultão. E quando todos estavam de partida, sem que ninguém percebesse, pediu ao grão vizir que o substituísse, voltando incógnito com o irmão para o palácio. Colocaram-se na mesma janela onde o rei da Grã-Tartária assistira à cena da orgia. Não demorou para que a porta do jardim secreto se abrisse e por ela passasse a magnífica sultana, logo seguida por suas companheiras e os escravos disfarçados.

Toda a cena se repetiu, e daquela janela o sultão viu mais do que o suficiente para convencer-se de toda sua vergonha e da sua desgraça. Chariar estava pálido como papel. Chazenam disse: "-Meu irmão, vamos superar juntos toda essa tragédia e que ela não nos impeça de sermos felizes novamente!"

Mas Shariar não escutou. Ele estava em estado de choque! Se aquilo aconteceu com ele, o maior de todos os príncipes, soberanos de tantos estados, então é porque não há lealdade no mundo! Ele tomou uma decisão: Resolveu abandonar tudo! Palácio, riqueza, poder, tudo! Jurou que só voltaria se encontrasse alguém mais infeliz do que ele!

Preocupado com o irmão, Chazenam resolveu acompanha-lo. E os dois partiram pelo mundo afora, vivendo como andarilhos, dormindo em baixo de árvores, se abrigando das chuvas em cavernas, se alimentando de frutas e raízes!

Certo dia, enqto enveredavam por um bosque enevoado, ouviram um estrondo enorme que vinha da direção do mar. Apavorados os dois irmãos subiram correndo em uma árvore, e quando olharam viram que as águas se abriram e uma enorme coluna negra saía de dentro do mar e subia em direção aos céus por entre as nuvens. E de dentro da coluna saiu um gênio enorme com uma caixa de cristal na cabeça. O gênio entrou no bosque e colocou a caixa bem embaixo da árvore onde os dois estavam escondidos certos do perigo que corriam.

Usando sete chaves diferentes, o gênio abriu as sete fechaduras de ouro que trancavam a caixa. E de dentro dela, saiu uma lindíssima mulher ricamente vestida!

Chariar e Chazenam já tinham ouvido falar daquele Gênio antes! Mas sempre pensaram que fosse apenas lenda, que não passava de histórias para assustar as crianças... Mas agora o gênio estava ali... e eles quase podiam sentir o hálito do monstro de tão perto! Suas babás costumavam contar antes deles dormirem:

"Era um gênio mal! Um Gênio muito mal! Trancava sua mulher numa caixa de Cristal. E depois dizia que era apaixonado, não vivia sem ela era um amor desesperado! E lhe dava ouro, e qualquer tesouro, lhe fazia as vontades isso era verdade... Só não lhe devolvia a liberdade! Mas o que o gênio não sabe, eu digo com segurança, é que não existe amor que viva sem confiança!"

De onde estavam, os dois irmãos puderam ver que o gênio adormecera com a cabeça no colo da mulher e ela fazia carinho em sua enorme sombrancelha. Seu ronco ressoava por todo o bosque, e suas pernas esticadas chegavam até a beira do mar. A mulher tirou a cabeça do gênio de seu colo delicadamente, e repousou-a no chão. Então, olhando para o alto da árvore, fez sinais para que os dois descessem. Os dois ficaram desesperados pois não sabiam que haviam sido vistos. Com medo do gênio, imploraram também com sinais para que ela fosse embora! Mas ela insistiu e ameaçou realmente acordar o gênio caso eles não descessem. Os dois se agarraram na árvore e só faltaram chorar como crianças. Então a mulher resolveu convecê-los de uma forma mais interessante: Hipnotizando-os com sua dança. 

Encantados, Chariar e Chazenam resolveram descer da árvore para ver melhor. Os três se afastaram daquela árvore, conversando muito, riram muito e se divertiram como jamais imaginaram. 

Receando que o gênio despertasse antes dela voltar, a mulher se despediu e pediu a cada um dos irmãos, um dos anéis que eles traziam nos dedos. Os dois não entenderam nada, afinal com sua magia, o gênio poderia dar-lhe todas as jóias que ela quizesse! Então ela  resolveu explicar:

 "-Sabem o que isso significa? São anéis de todos os homens que estiveram comigo depois que o gênio resolveu me raptar no dia de minhas núpcias e me proibiu de conviver com qualquer outra pessoa! Vejam! Noventa e oito bem contados! Agora com os dois anéis que vocês me acabam de me dar, eu completo o cento! Eu sempre encontro um jeito de fazer tudo o que eu quero!"

Dizendo isso, ela fez sinal para que eles fossem embora e voltou a colocar a enorme cabeça do gênio em seus joelhos.

Chariar e Chazenam se afastaram completamente chocados! Com todos os seus poderes sobrenaturais, ainda assim, aquele gênio terrível não fora capaz de descobrir as traições de sua mulher! Convencidos afinal de que o gênio era mais infeliz do que eles, os dois resolveram voltar para seus palácios.

Assim que Chariar chegou em seu palácio, sacou sua adaga, e cortou a cabeça da Sultana. Não satisfeito, saiu correndo pelo palácio até encontrar cada uma das damas de companhia da rainha e cortou a cabeça delas também. Então jurou:

"-A partir dessa data, nunca mais mulher nenhuma me trairá, pois me casarei com uma mulher diferente a cada noite, que morrerá ao amanhecer!"

E assim foi feito! Nunca, em lugar nenhum do universo, o mundo conheceu dor igual! Nas casas as famílias choravam por suas filhas, pelas que já estavam mortas, e pelas que ainda iam morrer...

Sherazade: "- Foi nessa parte da história que eu entrei, e com o sultão também eu me casei, mas precisava um plano inventar ou o sultão iria me assassinar!

                     Pedi a minha irmã que viesse comigo e ao sultão fiz um último pedido, que uma história eu queria lhe contar, pois seria a ultima vez que eu iria                      lhe ninar. E a cada história que eu inventava, numa outra história então eu imendava, e contando histórias cantando e dançando o amor do                            sultão eu iria conquistando..."

(...) O dia que acabava de nascer naquele instante, impôs silêncio à Sherazade, e deixou não somente Dinarzade, sua irmã, mas também Chariar, com o grande desejo de ouvir a continuação.

 

 

 

 

 

 

Mitos e contos de fada em busca de seus significados -

As Mil e Uma Noites: a história de um rei curado pelos contos de fada

 "Em momento algum devemos sucumbir a ilusão de que um arquétipo                                                                                                                             possa ser afinal explicado e com isso encerrar a questão. Até mesmo a                                                                                                                             melhor tentativa de explicação não passa de uma tradução mais ou menos                                                                                                                         bem sucedida para outra linguagem metafórica. De fato a linguagem nada                                                                                                                    mais é do que imagem!"

                                                                         Jung, Carl Gustav 

por  Renata Rizzo

O Rei significa o princípio dominante da consciência de um povo. Por tanto, o Conto das Mil e Uma Noites apresenta uma condição clássica, aonde o princípio da consciência coletiva, chegando a um impasse, não é mais capaz de dirigir ou funcionar corretamente, simbolizando a inadequação da atitude coletiva para a qual o conto tenta propor uma solução.

A Rainha simboliza a tônica do sentimento afetivo da coletividade. Com a morte, a ausência da Rainha, significa que este último aspecto foi perdido. Por tanto, se pode supor que a história trata da problemática da atitude coletiva dominante, na qual o relacionamento com o inconsciente, com o irracional, o feminino, foi perdido. Isso se refere à situação onde a consciência coletiva, tornou-se petrificada e enrijecida em doutrinas e formulas.

É impressionante como a problemática proposta por um conto tão antigo, continue tão atual nessa civilização. A mulher não tem voz. Como se os homens fossem imaculados. A orgia com dez damas de companhia e onze escravos negros, onde A Rainha foi encontrada, neste Conto, simboliza um desejo violento por mudança que acaba por lançar seus participantes numa manifestação regressiva com a devassidão. Eleva-os acima de si mesmos ao limite da ilusão, mas termina exaurindo suas energias na degradação. É uma destruição. O número dez simbolizaria um ciclo completo e teria uma conotação positiva para as dez damas de companhia. No entanto com a Rainha aparece o número onze que, ultrapassando a plenitude do número dez, simboliza o excesso. Este número anuncia um conflito que pode gerar o começo de uma renovação, ou uma ruptura e uma deterioração do dez.

A cor negra também é muito simbólica, mas é importante excluir aqui qualquer julgamento de valor. Neste Conto ela simboliza a coexistência dos contrários não equilibrados, numa tensão constante. Quando o Imperador toma consciência dos fatos, irá observar três situações de traição. Três situações onde se formam triângulos amorosos. Seu irmão foi traído. Ele próprio foi traído. E o Gênio do mal, surpreendentemente, também foi traído. O número três é um ritmo característico dos Contos. Geralmente existem três ritmos semelhantes e uma ação final. É a mesma coisa que contar: um, dois, três e já! O um, o dois e o três levam ao verdadeiro desfecho a quarta etapa, conduzindo a uma nova dimensão que não é comparável com as três etapas anteriores. O número quatro significa um estágio estático, alguma coisa que se estabiliza, e será representado pela entrada da personagem Sherazade, a heroína da história.

E ao final das Mil e Uma Noites sobrevividas contando histórias, que o Rei não quer parar de escutar, descobrimos que Sherazade e o Rei já têm dois filhos. Por tanto, na quarta etapa, ao final, encontramos quatro personagens.

A floresta por onde os Reis enveredam, assim como o mar de onde o Gênio sai, simbolizam o inconsciente, pois numa floresta, devido a quantidade de árvores, a visibilidade é limitada. Também possui animais selvagens, ou seja, perigos inesperados podem aparecer. O inconsciente é de fato um lugar onde penetramos nos sonhos, ou em situações depressivas, quando nossa energia se volta para nosso interior, a fim de lidar com as emoções trazidas de nossas vivências. É um lugar que nos é próprio, e do qual precisamos aprender a sair. Para isto existem as psicanálises. E também para o auto conhecimento, claro.

O Gênio que sai das profundezas do mar deixando os dois Reis apavorados, significa que um conteúdo arquetípico se aproxima da consciência humana. Quando isso acontece, é possível que apenas sua carga emocional seja experimentada. A pessoa sofre o influxo de um estado emocional avassalador e não percebe seu significado. Isto pode realmente ser perigoso. Quem nunca fez algo do qual veio a se arrepender quando tomado por alguma emoção intensa como raiva, por exemplo?

No entanto esses Gênios podem ser muito úteis, se combinados com a inteligência humana. Não podemos esquecer que são os mais velhos quem melhor conhecem os caminhos.

Este Gênio, vindo das profundezas das águas do inconsciente, provavelmente foi um Deus cultuado localmente outrora. Agora diante de uma nova condição religiosa, foi rebaixado a Demônio, simbolizando o estado emocional avassalador do qual são tomados os homens dessa cultura, quando se descobrem traídos. Tornam-se mesmo assassinos.

A prisão da mulher do gênio é como esse povo quer manter suas mulheres: em redomas de vidro, de onde tudo vêem, mas sem ter contato com ninguém, protegidas de outros homens e delas mesmas. Dessa forma os homens não precisam ter que educar seus instintos sexuais mais primitivos. As fechaduras de ouro da caixa simbolizam o modelo de moral e boa conduta. Mas elas prendem uma mulher, por tanto o modelo imposto pela força bruta. O ouro como metal precioso que não se deteriora, significa que o Gênio quer que elas durem eternamente, e que guardam o que ele traz de melhor, de mais precioso: sua anima, seu princípio feminino.

Todo homem tem dentro de si o seu lado feminino, representado pela anima que é naturalmente projetada na mulher com quem convive intimamente. Da mesma forma, a mulher possui seu princípio masculino, o animus.

A anima desse povo está possuída pelo Demônio. Neste conto, existe um processo hierárquico para uma conformação com suas próprias desgraças. Shazenã, um rei menor, que se sente mais próximo do povo, busca se conformar com a traição de sua Rainha, uma vez que  Shariah, o grande imperador, também foi traído. Shariah, só volta para seu palácio quando julga ter descoberto alguém mais infeliz do que ele: O Gênio do mal, que com seus poderes sobrenaturais, não foi capaz de impedir que fosse traído também. No entanto continua inconformado. Mata a Rainha com todas as suas damas, e continua a matança até ser curado pelas histórias de Sherazade. Neste caso, podemos nos sentir aliviados pelo fato do Gênio nunca ter descoberto a traição de sua mulher. A decapitação das mulheres confirma a separação brutal da razão, a cabeça, e do corpo, os sentidos, os sentimentos, a emoção, tamanho é o medo que esses homens sentem de amar e serem des-iludidos. Preferem continuar com a ilusão de que com a força bruta possuem domínio sobre tudo, inclusive seus sentimentos.

Estamos falando do povo árabe, mas nosso povo  ocidental também não fica muito atrás, pois em nossas histórias a anima, muitas vezes, é retratada como feiticeira. A feiticeira representa a guardiã do inconsciente, ela encarna o medo da vida e de seus mistérios, o temor de entrar numa aventura interior.

Tendemos a inclinação fortemente racionalista em nosso sistema educacional, e costumamos considerar os mitos e contos de fada como bobagens supersticiosas ou historinhas para ninar crianças. Na realidade, porém, representam uma psicologia altamente sofisticada, expressa numa linguagem poética de imagens e narrativas dramáticas.

Os mitos e contos de fada jamais serão sobrepujados, pois falam diretamente ao inconsciente, e a humanidade sempre sentirá o fascínio e a necessidade por essas histórias. Sherazade é a heroína, aquela que acolhe o Rei e cura suas feridas da anima pacientemente. Assim salva o reino, salvando sua própria vida. Ela assume o papel de Rainha, princípio feminino, a tônica dos sentimentos afetivos, e com esperteza, suavidade, inteligência e astúcia, contando histórias, fascina o Rei.

Os árabes têm verdadeiro fascínio por seus contadores de histórias que as narram com sua alma ardente e apaixonada. Talvez a anima desse povo precise continuar contando-lhes histórias noite após noite para sobreviver... E quem sabe um dia o Rei possa ser curado...

“- Mas senhor, disse Sherazade, a esta altura sou obrigada a interromper minha história... O dia que aparece ordena que eu me cale...”

 

Palavras Chave

Mitos

Contos de Fada

Interpretação psicológica

Mil e uma Noites

Mitologia

Mitologia Grega