Rayane, 3 dias na vida de uma bailarina.
Rayanne
O Vácuo
Chovia torrencialmente. Parecia que sempre que morria alguém na família de Rayanne, o céu chorava, solidário com a dor no seu coração. Dor no coração. Rayanne sabia que ainda estava em estado de choque, ainda não estava sentindo aquele estrangulamento no peito, tão seu conhecido. No entanto sabia muito bem que era questão de tempo. Logo sentiria o impacto daquela rasteira que a vida lhe dera. Mas seu corpo soubera antes de sua consciência, daquela desgraça. Desde a hora em que acordara, sentira todos os músculos do seu corpo se retesarem. Seus ombros e pescoço doíam, e seu humor estava péssimo. Fora trabalhar assim mesmo, não poderia faltar sem prejudicar sua carreira., mas estava com muito receio de que algo acontecesse, devido ao seu mau humor. Aconteceu, mas não foi com ela. Logo depois do almoço, teve a notícia daquela desgraça, e saiu em disparada para o cemitério São Sebastião do Rio de Janeiro.
E agora estava ali, caminhando por entre os túmulos em direção ao jazíguo perpétuo de sua família. Onde estavam enterrados todos os seus, a sua gente, seus antepassados, sua história, sua família. Jazíguo perpétuo. Pelo menos isso. Detestava ter que enterrar alguém querido em uma daquelas gavetas temporárias, fedorentas. Deus, como odiava aquilo! Mil vezes a cremação! Aliás preferia a cremação a qualquer coisa! Certa vez dissera ao seu namorado:
“-Pode doar tudo: rim, coração, córnea, fígado, pulmão, pele, osso, o que sobrar inteiro, pode doar!E se estiver muito complicado pra me cremar, joga álcool, e taca fogo, mas não me enterra!”
Quando era pequena, sempre que morria alguém, uma fantasia sinistra lhe ocorria, juntamente com o pânico. Ser enterrada viva. Deus nos livre e guarde!
No cemitério, a medida em que caminhava, ia observando aquelas estátuas, que sempre a fascinaram tanto. Gostava de arte sacra, mas a arte sacra dos cemitérios, são as mais cheias de sentimentos, as mais impressionantes, as mais belas, em um sentido muito triste, mas muito fascinante. Ai, as costas. Doíam demais. Como trabalhar desse jeito amanhã, meu Deus! A diretora da cia de dança, mais parecia a Rainha de “Alice no país das maravilhas!”. Cruzes!
Pensar na dança, fez com que pensasse em sua carreira desde o início, quando todos foram contra, todos. Chegou a ter que sair de casa aos dezoito anos. Todos, menos sua tia, irmã de sua mãe, com quem fora morar no início. Sua tia, que também era sua madrinha. Sua tia, que era uma segunda mãe. Sua tia, independente; sua tia, tão elegante, fina, bonita; sua tia, inteligente, culta, politizada, sensível; sua tia, louca, livre...sua tia, admirável, carismática, engraçada, tão querida... sua tia, a única da família a compreendê-la... sua tia, sua grande amiga; sua tia, agora morta naquele caixão. Ah, Deus, a solidão...quem há de compreendê-la tão bem agora... Saudade. Saudade das conversas nos barzinhos em Santa Tereza. Dos shows no circo voador, na fundição progresso. Dos espetáculos de dança no Municipal, no teatro João Caetano...tudo aconteceu tão de repente, meu Deus! Ai, as costas! Jesus Cristo!
Sua mãe não chora, mas treme da cabeça aos pés. Segura firme a mão de seu pai. Seu namorado dando aula. E ela ali. Sentindo aquele vazio e mais nada. Na ansiedade da antecipação daquela dor violenta, quando passasse o estado de choque.
Deus, as costas! Uma massagem. Pelo amor de Deus, precisava de uma massagem, ou não conseguiria mexer a cabeça no dia seguinte. Conhecia um lugar ótimo, uma clinica esotérica chamada “O olho de Hórus”, que vende sais de banho, óleos de aroma terapia, com acupuntura e massagem. Ela possuía o telefone de lá em seu celular. Iria ligar. Iria ligar agora mesmo.
“- Alô, Olga? Olga, estou precisando de uma massagem com urgência. Daqui a uma hora, está bem? Ótimo! Estou indo pra aí.”
O Olho de Hórus
“- Ah, Naninha, que bom que você veio! Isso mesmo, a gente está aqui é pra ajudar, nessas horas difíceis mesmo. Eu vou te apresentar uma pessoa que tem as mãos mágicas, abençoadas! Não se deixe enganar pelo tamanho dele. Ele é um pequeno grande homem, com as mãos de ouro. A mãe dele é minha amiga. Trabalha com a gente desde os dezoito anos de idade, e já fazem cinco anos! Está se formando em fisioterapia! É um menino de ouro, imagina que namora há nove anos a mesma menina! Primeira e única namorada! Não é uma gracinha? Luan! Luan, vem aqui! Luan, essa é a Rayanne. Cuida bem dela, que ela é cliente vip! E hoje ela está precisando de uma atenção especial!”
Rayanne não deu nada por aquele rapazinho franzino. Esse menino vai conseguir dar conta da minha dor? Difícil de acreditar. Mas entrou, logo atrás dele na sala de terapia.
-Você pode ir tirando a roupa, e deita na mesa de barriga pra baixo.
Tirar a roupa? Rayanne não havia pensado nisso! Do ensaio fora direto para o enterro, e depois direto para a clínica. Ainda vestia apenas a malha da dança, um collant de manga comprida, e uma calça confortável que lhe permitia todos os movimentos. Mais absolutamente nada.
- Não, me desculpe, estou com muito frio, eu não vou tirar a roupa, você se importa de fazer a massagem por cima da malha?
- Mas é que eu preciso passar o óleo...
-Não dá pra fazer assim?
-Dá...mas é mais difícil. É melhor você tirar a malha.
-Não, você não está entendendo. Eu não estou usando nada por baixo.
-Eu cubro você com o lençol...
-Não, negativo, eu não vou tirar nada, vai fazer assim mesmo?
-Tudo bem.
A medida em que o rapaz avançava na massagem, Rayanne ia ficando impressionada com a mistura de força e suavidade com que aquele rapazinho fazia a massagem. Aos poucos sua tenção foi evaporando, a dor do corpo foi se esvaindo, dando lugar apenas a dor do coração. Apesar de toda a dificuldade imposta ao profissional, ele deu conta do recado com perfeição.
Ao sair da clínica, seu corpo estava melhor. Mas seu peito estava estraçalhado.
Intuição
Onde estaria Heitor a essa hora, meu deus do céu? Era impressionante, mas desde que começaram a namorar, nunca pudera contar com ele em hora difícil, nenhuma, de sua vida. Egoísta! Nem imaginava o que havia acontecido, porque simplesmente não se preocupava com ela, pois se se preocupasse ficaria sabendo. Já ligara para ele umas três vezes, e o telefone sempre fora de área. A essa altura já deveria ter saído do trabalho... Ah, mas claro! Hoje era a festa de noivado da irmã dele! Sua cabeça estava péssima, mas com toda razão. Ele estaria em casa, com certeza! O telefone da casa dele só dava ocupado... precisava tanto de colo naquela noite...mesmo um colo desgastado, praticamente acabado, ainda seria bem vindo. Resolveu ir para a casa dele direto. Havia ficado de ir pra lá após o ensaio, de qualquer forma... é bem verdade que o ensaio só acabaria dali a uma hora, mas não haveria problema, a não ser pelo fato de não estar vestida para uma festa... e nem com clima para festa, também... tudo bem, precisava falar com ele, contar o que havia acontecido, quem sabe em seu ombro, finalmente conseguiria chorar, e então pediria a ele que a levasse para casa, dormiriam abraçados, era tudo o que precisava. Será que ele aceitaria deixar a festa da irmã? Não sabia. Em se tratando de Heitor, era difícil saber. Festas eram as coisas mais importantes em sua vida, principalmente quando reuniam a panela de seus irmãos e um casal de amigos íntimos.
No ônibus, a caminho da casa do namorado, o nível de ansiedade voltou a crescer... Engarrafamento. Não... !Tudo menos isso! Não podia ficar ali nem mais um segundo! Olhou para todos os lados e descobriu uma rua que não havia sido englobada pelo engarrafamento... Pronto.
-“Piloto, por favor, abre pra mim...!”
Desceu aliviada, como se estivesse sido impedida de respirar, e finalmente sentia o ar de volta em seus pulmões. Um taxi. Precisava de um taxi. Logo avistou um, mas... Em sentido contrário. Não pensou nisso.
-“Copacabana, por favor, temos como fugir desse engarrafamento?”
O motorista assentiu com a cabeça.
Muitos anos mais tarde, ao se lembrar desse momento continuaria se espantando sempre, sempre e sempre...
O taxi fez a volta em uma bandalha sem muita importância, pois o contra fluxo estava vazio. Então a partir daí algo muito interessante começou a acontecer, algo que não poderia deixar de ser notado: naquele caminho, todas as ruas praticamente livres, nenhum sinal fechado, nenhum...! O carro deslizava em seu caminho, o caminho todo livre, o primeiro sinal, o segundo, o terceiro: abertos! Realmente notável. Ao chegar ao destino, o preço, uma nota redonda, sem troco, saiu do carro, colocou a mão na porta do prédio, o porteiro já apertava a campainha de abertura, o elevador parado no hall, subiu direto p/ a cobertura, sem parar em andar nenhum, e ao chegar à cobertura, a porta aberta, levemente encostada, a noivinha esperava os convidados... ninguém na sala. Subiu direto p/ o segundo andar do duplex, e já no corredor austero, que parecia interminável, ouviu a voz de seu namorado, falando ao telefone... Quisera não ter ouvido.
Aquelas palavras ecoariam em seus ouvidos por muito tempo...
“Ah, não Mônica... comigo não tem essa não é mão no peitinho direto, enquanto aperto a bundinha...”
Mônica... Uma menina baixinha, gorda, e que não conseguia se ajeitar com aquele cabelo de jeito nenhum...! Várias vezes Heitor falara dela... Ele queria poder sair sozinho com ela para conversar! Conversar... Um riso, que mais parecia um sopro, meio nervoso meio debochado escapou dos lábios de Rayane...
Mônica... Dava pra sentir o desconforto da garota sempre que Raiane estava por perto...
Heitor era do tipo egoísta, machista, do tipo que quer tudo ao mesmo tempo, não renuncia a nada, não quer fazer escolhas...
Um embrulho no estomago e um nó na garganta... “Obrigada, Heitor!!! Isso era tudo o que eu mais precisava nesse momento...”
Vontade de vomitar!
Parou na porta do quarto, Heitor de costas, virou-se e deu o sorriso mais amarelo, mais patético que Rayane já havia visto em toda sua vida... Acenou... Ridículo!
Rayane virou-se e correu para fora daquele quarto, daquele corredor, daquele duplex, daquele elevador, da vida daquele babaca!
Ouviu a voz dele dizendo “-Eu vou precisar desligar...” Não ouviu mais nada, já estava no andar de baixo, na porta do apartamento. A irmã dele recebendo uma prima, Rayane, com meio sorriso, acenou com a cabeça, entrou no elevador, que mais uma vez estava a sua espera, e desceu os dez andares daquele Mausoléu.
O Desabafo
Na rua, correu para a praia. Sentou-se na beira do calçadão e chorou. Pelo menos para isso serviu. Colocou toda a dor pra fora, em forma líquida e meio salgada. Chorou convulsivamente, chorou de soluçar. Uma senhora trouxe água, perguntou se ela estava passando mal, Rayane fez que não com a cabeça. “- Coisas do coração”, conseguiu dizer entre um soluço e outro.
Passou um bom tempo em que Rayane ficou ali, escutando o som do mar, olhando o vai e vem das ondas, sem enxergar mais ninguém, entregue ao mais puro e catártico desabafo. As lágrimas corriam como cachoeira, sem que ela precisasse fechar os olhos.
Um rapaz com um violão se aproximou. Sem dizer absolutamente nada, sentou-se ao lado de Rayane, e começou a cantar uma canção:
“Pra sinhá sorrir, faço festa, fado, três guerras, sina, projeto o sol, mandarim... Que solidão...!”
Surpresa, Rayane olhou para ele.
“Pra sinhá sorrir, canto um verso a sua janela, mina, flor querubim, quero um fim pra tanta dor...”
Sorriu. Seu sorriso ainda se misturava com as lágrimas...
“Adeja vou madrugada, sinhá acorda, ouve essa canção...”
Rayane se emocionou.
“-Fiz essa música pra você! Agora mesmo. Suas lágrimas doeram no meu coração. Você é tão linda... Não chora, não... Quero ver você sorrindo... ”
Era um rapaz moreno, cabelos cacheados, olhos pequenos e amendoados...
“-Então pronto... eu já estou sorrindo, agora!”
Mas apesar de realmente estar sorrindo, as lágrimas ainda corriam soltas pelo seu rosto.
-“Me chama de Nô.”
-“É seu nome?”
-”Na verdade meu nome é João. Mas todos me acham parecido com o marido da Bruna Lombardi, e ele fez um papel em um seriado, em que o nome do personagem dele era Nô. Então todo mundo passou a me chamar de Nô também”.
Rayane emitiu um simples “Ahnnn..”, como se tivesse entendido, mas estava achando aquilo muito divertido... O rapaz até poderia ser considerado bonitinho, mas não era parecido com o marido da Bruna Lombardi. Não mesmo. Absolutamente. Aquela história distraiu sua atenção
Rayane parou de chorar. Limpou as lágrimas com a mão. Fungou. Havia um certo clima no ar. Isso está acontecendo de verdade? Quase não acreditava. Mas Rayane não estava com muita cabeça para aquilo.
“-Eu sou Rayane. Sua música é linda... Muito obrigada! Quase consegui ficar feliz... Parece até... Alquimia. Você sempre faz isso?
Rayane ainda estava sorrindo...
“- Falando assim, você me deixa apaixonado! Tenho verdadeiro fascínio pelos antigos alquimistas, e suas pesquisas sobre o ouro alquímico do coração!”
Rayane sorriu, abaixando os olhos. Ele conhecia a linguagem dos alquimistas. Olhou pra ele.O que estava acontecendo ali?
“-Desculpa, não quero ser invasivo, mas... O que houve com você? ”
“Olha... eu realmente não quero falar sobre isso. Só vai me ferir, e sua música me fez um bem enorme! Meu Deus, eu preciso ir pro ensaio!!! A Diretora vai me matar!!!”
“-Ensaio...?”
“-Eu sou bailarina. Tenho que ir pro Municipal!”
“-Agora estou completamente apaixonado! Você tem mesmo todo porte de bailarina... Tudo bem. Eu te levo, se você me prometer que a gente vai se ver de novo...”
“-Não vou prometer não, mas se você quiser me levar eu aceito. “
No carro, Nô ficou impressionado com a transformação de Rayane. Com pó compacto e maquiagem, escondeu o inchaço dos olhos, a vermelhidão do pescoço. Fez um coque no cabelo e era outra pessoa. Nô pediu para ficar e assistir ao ensaio, mas Rayane precisava preparar o espírito da Rainha de “Alice no país das maravilhas... Tudo era motivo para aquela mulher fazer de sua vida um inferno! E depois, Heitor poderia aparecer por lá. As coisas ficaram mal resolvidas. E não aconteceu diferente. Ele realmente apareceu. Mas naquela noite, Rayane lavou a alma no suor do ensaio.
A vingança
Decididamente, era um lado sombrio de sua personalidade, do qual Rayane não se orgulhava nem um pouco... Mas precisava admitir para si mesma... olhar de frente, reconhecer esse defeito para poder, quem sabe um dia... será que um dia conseguiria ...? Não sabia. Tudo o que sabia naquele momento era que... Sim, ela era vingativa. Seu sangue fervia, mas era capaz de agir como a rainha do gelo.
No fundo, fogo e gelo queimam da mesma maneira.
Ele parou o carro na frente do Municipal com aquela cara de cachorro que quebrou panela, no momento em que ela estava saindo.
“-Me deixa te levar pra casa...”
“-Com tanto que você não encoste em mim.”
Heitor foi com o rabo entre as pernas. Em frente ao seu prédio, Rayane saltou do carro, bateu a porta e seguiu em frente sem olhar pra trás.
Não terminaria com ele.
Não antes de pagar na mesma moeda.
O dia seguinte
Rayane acordou com o despertador. Maldita hora em que colocara sua musica preferida no alarme do celular. Estava tomando horror daquela música! Ai, o corpo todo! Não havia uma parte de seu corpo que não estivesse doendo... Tensão outra vez? Excesso de esforço muscular? Tudo ao mesmo tempo? Ai, droga... As costas outra vez. Doíam mais que tudo. A cabeça. Droga, a cabeça também. Aquela carona do Heitor a deixara tensa. Os últimos acontecimentos foram de fato vertiginosos. Uma montanha russa com direito a looping e ficar andando um bom tempo de cabeça pra baixo. Se não fizesse uma sessão de massagem outra vez, não conseguiria dançar.
E Nô...? Será que realmente ligaria? Ou aquilo fora um charme jogado para ela de forma inconsequente? Bem aquilo era o que menos importava agora... Precisava estar inteira para o ensaio.
No bina do celular a ligação de Heitor... ‘AS’ ligações! Ainda bem que colocara o celular no silencioso, se não, não conseguiria descansar.
Teria de resolver aquilo. Uma música de Belchior não saia de sua cabeça: “ Mas se depois de cantar, você ainda quiser me atirar, mate-me logo ataque as três, pois a noite eu tenho um compromisso e não posso faltar por causa de vocês!”
O ballet significava muito pra ela. Não perderia seu papel por causa de um babaca.
Ligou para Olga. Marcou outra Massagem com Luan.
O Olho de Hórus Parte II
Dessa vez foi preparada. Mas não com um biquíni. Não. Preparada com uma das lingeries mais sensuais que Rayane possuía em sua gaveta, e praticamente nunca usava. Sim era seu fetiche... Um fetiche muito brando, muito leve, muito saudável e muito glamoroso. Um pouco caro, é verdade, mas ela adorava.
Entrou na sala de massagem, tirou a roupa e deitou de costas. Quando o rapaz chegou, já a encontrou com a lingerie de renda deitada de costas na maca de massagem, o rosto virado baixo, escondendo o sorriso malicioso. Sentiu que o rapaz prendera a respiração. Quase riu, mas se segurou. Realmente, para quem não queria tirar a roupa de jeito nenhum na sessão anterior, agora ela pareceria hipócrita. Seu coração batia muito rápido, isso ela não poderia disfarçar.
O rapaz levou algum tempo para se recompor (ou admirá-la) na porta. Ou pra se recuperar do susto. Por um breve momento quase sentiu remorso. Coitado do rapaz. Seu cérebro deve ter dado curto circuito. Ainda por cima era tão novinho. Não deveria brincar desse jeito com o garoto. Bem, ele sairia no lucro. Pelo menos em experiência. Para ele seria uma aventura, uma história pra contar pros amigos.
Ele começou a massagem.
Ela sentiu que a respiração do rapaz ficara mais acelerada. Ou seria impressão sua? Rayane não possuía nenhum traço de falsa modéstia. Conhecia muito bem seus atributos.
Quando a massagem, chegou em suas coxas, a respiração já estava bem mais forte. E para confirmar a teoria de Rayane, ao massagear o interior das coxas, as mãos do rapaz foram um pouco além, um pouco acima, quase atingindo sua intimidade, no entanto isso a enlouqueceu muito mais do que se a tivesse tocado pra valer.
Afinal o rapaz não era nenhum santinho.
E então ele começou a massagear suas nádegas...
Apesar do intenso prazer, Rayane quase sentiu pena do rapaz, que respirava com dificuldade e lutava com intensidade em conflitos internos de vontade e contra vontade; instinto e profissionalismo; prazer e ética. Seu sutien estava desabotoado para que ele pudesse lhe massagear as costas. Então, ele disse: “- Pode se virar.”
Sem se preocupar em abotoar o sutien, Rayane apoiou as mãos na maca de massagem e esticou os braços, ainda de costas, deixando-o escorregar pelos braços antes de se virar. Depois que o soutien desceu pelos seus braços, virou-se imediatamente.
"Eu deveria ter abotoado isso, não é...? Agora ja foi..." E livrou-se do soutien, deitando-se de barriga pra cima, e fechando os olhos.
O rapaz prendeu a respiração e engoliu em seco. Depois soltou um risinho nervoso.
Rayane segurou os músculos do rosto para não sorrir. Seu coração aos saltos. Será que ele sentiria?
Luan colocou uma pequena toalha dobrada em seus olhos. Evitou a todo custo tocar em seus seios.
Quando terminou, ofegante, tirou a toalha dos olhos de Raianne e beijou-lhe os lábios de leve. Atordoado, o rapaz começou a se desculpar. Raianne puxou-o pelo braço.
“Deixa de ser bobo. Eu te provoquei o tempo todo.”
Deu-lhe um beijo de verdade, e enquanto iam evoluindo, ela esticava o braço para alcançar a camisinha em sua bolsa.
Mais tarde se perguntaria, quantas vezes poderia se apaixonar, em uma mesma semana, se viesse a se permitir?
Nunca mais esqueceria aquele momento. Nem ela, nem ele.
Premeditação
A noite, pensando em tudo o que aconteceu, Rayane sabia muito bem que a verdade era uma só: Se havia se apaixonado assim, tão rapidamente, por duas vezes na mesma semana, era porque estava apaixonada pela aventura, pela liberdade, pelo prazer, e não por pessoas, que nem mesmo conhecia direito. Apaixonou-se pelo que eles representavam: a alegria de viver. A alegria de viver que tomava o lugar da sensação de morte, do sentimento de miséria, de fracasso do relacionamento. O renascimento das cinzas. Na véspera do dia anterior, Rayane consumiu-se, ela sabia, até virar pó. Depois, como a Fênix, renasceu das cinzas e alçou voo. E agora a intenção era contar para Heitor, tudo, com todo requinte de crueldade. Do contrário nada daquilo faria sentido. E depois nunca mais olhar pra cara dele.
Contou para uma amiga do Ballet, o que pretendia fazer.
“- Ele vai te bater!”
“- Ele não é besta! Eu conto pro meu pai e ele vai acordar deitado no meio fio, com a boca cheia de formiga.”
Silvana apenas arregalou os olhos. Conhecia o pai de Rayane. De fato: Uma fera!
Da próxima vez que Heitor ligasse, Rayane atenderia. E no dia seguinte, aceitaria encontrar-se com Heitor em algum intervalo do ensaio. Estava decidida e sabia muito bem o que estava fazendo.
O ato consumado
Naquela noite, quase não conseguiu dormir, na adrenalina da expectativa do que pretendia fazer. O sol mal havia nascido, o despertador ainda nem tocara, mas Rayane levantou-se de um pulo e resolveu se arrumar. Escolheu seu colant de dança mais bonito, mangas compridas, o decote em v, as costas nuas. A calça 'bailarina' cinza pra contrabalançar. Penteou-se com esmero, o coque impecável, e colocou uma sandalia de salto alto da cor do colant. Vermelho. Sua cor preferida. A cor da paixão, do sangue, de sentimentos intensos. Ao maquiar-se, usando o delineador preto nos olhos, não pôde deixar de se sentir fazendo uma maquiagem de guerra. 'Vestida para matar'. Quase literalmente. Um sorriso cínico formou-se nos lábios de Rayane, agora pintados com o batom vermelho.
Ao consumar sua vingança, Rayane procurava dentro de si mesma, um traço, qualquer vestígio de remorso ou arrependimento, mas não havia.
Heitor reagira com tristeza. Sentado ao lado dela, no banco da Praça Mahatma Gandhi, onde ficava o teatro, ele ouvia calado, de cabeça baixa. Rayane estava fria. Em um determinado momento, ele levantou-se:
“-Chega. Já ouvi o suficiente.”
“-Será?”
“-Eu vou embora.”
“-Vai com Deus.”
Ele saiu sem encará-la nos olhos.
Superação
Rayane deixou-se ficar por um tempo ali, sentindo o solzinho manso de outono, tentando em vão escanear seu interior. Não adiantava fazer isso agora. Havia pegado pesado, ela sabia. No final ela foi pior do que ele... Foi mesmo? Por quanto tempo ele mantivera aquela relação escrota com aquela garota? Provavelmente ao longo de todo o relacionamento deles... No final das contas a amante era o verdadeiro relacionamento de Heitor. Ele mudava de matriz, mas a filial permanecia... Idiota! Ou melhor, a única idiota ali era ela! Então pra que ele namorava? Por que assumia compromisso? Imbecil! Então... Bem feito! Tomou! Merecido. Mas ela agiu como uma doidivanas! Um erro jamais justificará outro! Aaaaaaahhhhh! Era melhor não pensar. Uma confusão de sentimentos começava a instalar-se. Morte, vazio, cemitério, traição, miséria, farrapos de sentimentos, mar, lágrimas, catarse, música, paixonite, dúvida, medo, aventura, dor, massagem, premeditação, luxúria, tesão, dança, suor, entrega, endorfina, vingança, como conseguira? Espantava-se consigo mesma, e ao mesmo tempo, tinha medo de parar. Pensar. Sentir. Que bom que dançaria agora por mais quatro horas seguidas!
Ai, as costas! As costas outra vez! Droga! Dessa vez a massagem está fora de cogitação. Suportaria a dor. Estava suportável. Graças a Deus, pelo menos isso, a dor estava suportável dessa vez! A noite, se necessário, se encheria de relaxante muscular, antes de dormir. Se realmente precisasse, arranjaria outro lugar com um bom massagista. Aliás, era melhor começar a providenciar isso logo... Urgente! Antes que precisasse.
Os ensaios consumiriam toda sua energia, ela sabia. À noite desmaiaria de cansaço. De dia, lavaria a alma no palco. E assim a cada dia, renasceria.
Levantou-se. Estava na hora de entrar. Já ansiava por voltar e sangrar os pés de tanto dançar.
Seu telefone tocou. Numero desconhecido.
-“Pronto?”
-“Rayane? É o Nô...”
-“Oi! Olha, desculpa... esta na hora do ensaio, não posso falar com você agora. Te ligo depois, tá?”
“-Ok, Um beijo...”
“-Outro...”
Rayane não retornaria aquela ligação. Não tão cedo. Agora só havia uma pessoa por quem ela havia de se apaixonar. E a única pessoa por quem se permitiria apaixonar agora, era por ela mesma! Pela dança, pela bailarina!
Se Nô realmente quisesse, agora precisaria esperar. Esperar que ela estivesse inteira outra vez. Precisava colar seus cacos. E no momento, ela só queria uma coisa de sua vida: Dançar!
